ENTREVISTA

Mambembe, de Fabio Meira, revela a vida por trás das lonas

Filme define a insistência do cinema brasileiro em contar histórias do Brasil real
Divulgação
Filme Mambembe retrata o circo itinerante
Filme Mambembe retrata o circo itinerante

Mambembes, artistas da terra, ambulantes, têm um chamado: espalhar a arte por onde passam. Com alma cigana, são itinerantes. Quando um circo chega à cidade, é difícil não se perguntar sobre suas raízes. Qualquer pessoa com um instinto curioso quer saber quem são esses artistas, suas histórias, com quem aprenderam os truques de mágica, malabarismos e acrobacias. Deixaram para trás a família? Um amor em alguma cidade por onde passaram? Fora do espetáculo e por trás das lonas, o circo continua sendo instigante, e histórias desconcertantes permeiam o universo mambembe.

Mambembe 2024. Brasil - Distribuição: Roseira Filmes

Por mais chamativo que seja, trata-se de um Brasil muitas vezes esquecido. A arte, quando feita por pessoas à margem, tende a ser invisibilizada. No entanto, sua essência criativa e original é o que a mantém viva. Sua existência é um ato de resistência. Os circenses foram, e ainda são, o entretenimento de muitos brasileiros. Ainda assim, poucos ousam explorar e dialogar com essas narrativas.

Ao EXTRA, o diretor goiano Fabio Meira, 45, conta que se encantou pelo circo ainda na infância. As imagens dos artistas itinerantes e das lonas erguidas em terrenos vazios permaneceram em sua memória. “Eu gostava sobretudo de observar os bastidores. A vida daqueles artistas me fascinava, a liberdade, a poesia com que levavam o cotidiano. Para uma criança, era algo incrível de acompanhar.” Foi desse fascínio que surgiu a ideia de Mambembe, uma história de amor pelo circo.

Fabio Meira adentrou esse mundo esquecido da mesma forma que seu eu criança sempre desejou. Assistir às apresentações não era suficiente; era preciso abrir as cortinas, conhecer as pessoas por trás dos espetáculos, seus pensamentos, angústias, saberes e registrar.

Recém-formado em cinema e assistente do aclamado diretor Ruy Guerra, ele ansiava por produzir um roteiro próprio. Começou então a viajar por pequenas cidades do Norte e Nordeste em busca de personagens reais do universo circense para seu primeiro longa-metragem.

Mambembe 2024. Brasil - Distribuição: Roseira Filmes

O processo de produção de Mambembe teve início em 2010. O enredo original buscava retratar dois universos que se chocam: o de um topógrafo que percorre o país a trabalho, inspirado em seu pai, e o de três mulheres de circos mambembes.

Fábio não queria atores de cinema, mas, como define, “artistas naturais”. As buscas não foram em vão. No caminho, encantou-se por três delas: a dançarina Madona Show, do Rio Grande do Norte; Índia Morena, Patrimônio Vivo de Pernambuco; e Jéssica, de Belém do Pará.

“No caso de Madona e Índia Morena é diferente, porque são atrizes, e das maiores. Passaram a vida interpretando no circo, estão acostumadas com a plateia desde muito novas. Apenas não tinham feito um trabalho no cinema”, relata Fabio.

Jéssica Alves ex- artista circense
Mambembe 2024. Brasil - Distribuição: Roseira Filmes

Jéssica, porém, não pôde abandonar as viagens com o circo e desistiu de participar das filmagens. Atravessado por seu espírito jovem e aventureiro, Fabio convida a atriz Dandara Ohana para a interpretar uma personagem baseada na artista. Foi a solução encontrada para dar continuidade às gravações. Pouco depois, por falta de recursos, o projeto acabou sendo arquivado.

Quinze anos depois, o diretor e roteirista Fabio Meira se aproveita da liberdade do cinema e do circo para reviver o filme. Reconstrói a obra e transforma a própria impossibilidade de filmar em narrativa.

“Mambembe reflete o cinema brasileiro.”

O diretor de Mambembe Fábio Meira - Elisa Mendes/Divulgação

O que Fabio Meira fez é louvável. Trata-se de se reinventar para não deixar escapar grandes histórias que precisam ser contadas. Mambembe, em sua concepção inicial, já era um filme forte, mas o que se tornou é ainda mais grandioso.

É um filme sobre a realização de um filme que não aconteceu. O espectador mergulha no processo de criação e na intimidade de suas personagens. O resultado é um documentário metalinguístico que mistura ficção, pesquisa, bastidores, arquivos, gravações descartadas, ideias do roteiro, reflexões de Fabio e entrevistas com Jéssica, Madona e Índia Morena anos após o início do projeto.

O diretor só conseguiu retomar Mambembe após o lançamento de As Duas Irenes, em 2017. Exibido na Berlinale, o longa abriu portas para que ele conseguisse apoio e finalizasse o projeto que estava parado havia anos.

Assim como o circo, o cinema brasileiro também enfrenta problemas relacionados à falta de incentivo governamental e às dificuldades de financiamento. Filmes que retratam manifestações populares encontram ainda mais obstáculos para chegar ao público.

Segundo a produtora audiovisual alagoana Larissa Lisboa, o caso de Mambembe reflete uma realidade recorrente do cinema independente brasileiro, em que a persistência das equipes de produção acaba se destacando.

“Não é incomum que um filme fora do eixo tenha uma pré-produção mais longa na tentativa de angariar recursos e arcar com os custos de finalização e distribuição.”

O lançamento do filme só aconteceu em maio deste ano. Percorrendo as cinco regiões do Brasil, a obra já realizou mais de 20 sessões especiais de estreia. O diretor conta que o retorno do público tem sido marcado pela emoção e que, apesar da dificuldade de conquistar espaço nas salas de cinema, o esforço é recompensado pela recepção calorosa dos espectadores.

“Falta muita divulgação para que nossos filmes sejam vistos. No Brasil, investe-se pouco nisso. Acredito que, se tivéssemos mais apoio institucional, conseguiríamos alcançar um público maior para nossas obras. O cinema brasileiro é um dos melhores do mundo, e isso está mais do que provado”, finaliza.

Cada espetáculo é único

Mércia Lidiany, 48, entusiasta dos circos, lembra das apresentações que assistia quando criança em Rio Largo. Carros anunciavam a chegada das companhias, que, mesmo com poucos recursos, se tornavam o principal divertimento dos moradores durante algumas semanas.

Característicos do circo mambembe alagoano, os espetáculos de rua tinham nas rumbeiras — dançarinas que se apresentavam ao ritmo da rumba — sua principal atração. Números cômicos e criativos de mágicos e palhaços completavam a programação. A estrutura era improvisada, os assentos eram feitos de pedaços de madeira e os ingressos tinham preços acessíveis, o que ajudava a lotar a lona. Já os circos mais famosos cobravam valores mais altos e atraíam um público menor.

“Acho que antigamente, como não tinha rede social nem tantos outros atrativos, quando se falava em circo era algo muito bombástico para a nossa época. A gente ia para aquele circo simplório, que tinha as rumbeiras, palhaços, acrobatas, trapezistas e até números com animais. O local era bem simples, todo de lona. A vida dos artistas era precária, mas, mesmo assim, eles se dedicavam e mostravam encanto para a gente”, relembra Mércia.

A arte ao vivo tem essa magia. O público leva o circo na memória, e sua essência itinerante se revela até nisso: faz viajar no tempo, permanecendo na lembrança mesmo após muitos anos.

“A reação e a interação das pessoas influenciam diretamente no resultado do espetáculo. Na rua isso é ainda mais forte, porque interagimos muito. Cada apresentação é única; o público faz parte de algo que nunca mais será visto por ninguém”, destaca o ator e artista circense Henrique Nagope.

Apresentação do projeto Bora Circar
Arquivo pessoal

Henrique conta que sua trajetória começou durante a graduação em teatro na Universidade Federal de Alagoas. Foi em uma disciplina eletiva de circo que teve os primeiros contatos com a linguagem circense. Junto de outros estudantes, desenvolveu o projeto Bora Circar, que levava apresentações para ruas, semáforos, praças públicas e escolas, com o objetivo de aproximar a cultura circense e a arte urbana para as comunidades periféricas.

Sobre a precarização que sente na pele, ele reflete: “Eu acho que, no geral, as pessoas não têm a cultura de reconhecer os artistas como trabalhadores de verdade. Eu trabalho na rua e, na hora de pagar por um espetáculo que estavam consumindo, por um trabalho em que o artista passa meses, às vezes anos, se dedicando para produzir, a gente ainda não vê essa cultura de valorização.”

Artista Henrique Nagope
Arquivo pessoal

Um Brasil Inesquecível

"Fez do mundo o palco e da lona azul fez o céu". diz Morena em uma das cenas do filme. A falta de representação é irônica diante da quantidade de histórias carregadas de poesia que existem em um único território. Quando alguém decide contar algo diferente, porém, frequentemente encontra percalços pelo caminho.

Segundo a produtora audiovisual alagoana Larissa Lisboa, a principal dificuldade é que pessoas interessadas em realizar filmes como Mambembe muitas vezes não conseguem acessar os recursos necessários para viabilizar esses projetos “Em relação à representação de personagens e culturas populares, destaco o trabalho de Celso Brandão, que há 51 anos produz filmes com recursos próprios e retrata a cultura brasileira, especialmente a alagoana. Celso é uma exceção, mas seu exemplo mostra que, mesmo após décadas de dedicação, ainda há muitas histórias e culturas populares a serem retratadas.”, afirma.

O que se perde quando histórias como as de Madona, Jéssica, Índia Morena e de tantos outros artistas resistentes deixam de ser contadas? Para Fabio Meira, perde-se a possibilidade de um país se olhar no espelho.

“O Brasil é um país continental, de realidades muito diferentes, mas há algo que nos une, que nos aproxima e que é só nosso. É importante que sempre nos lembremos disso, que fazemos parte de uma cultura diversa, mas cativante em todas as suas faces.”

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